Vivemos e crescemos com a ânsia do dia a dia, a querer ser o filho preferido, a filha perfeita.
Em parte, nunca quis ser a filha preferida nem a perfeita. O meu único desejo, foi que gostassem sempre de mim...mesmo que o meu sorriso não fizesse sentido, ou que não tivesse porque chorar.
Sempre fui exigente comigo e sempre exigi muito dos outros, confesso.
Sempre achei que a verdade era o caminho, o principal, foi isso que toda a vida me incutiram!
Foi esse um dos principais valores. O outro, foi o seguir do coração.
Deixar-me ir... onde quer que a vida me levasse.
Deixavam-me sair à rua, e decidir o meu caminho, traçar a minha rota, tomar o meu rumo sem muitas objecções e interferências.
Deram-me a liberdade quando eu comecei a lutar por ela, e nunca se opuseram à forma como
eu usava e abusava dela.
E ao completar o meu 18º aniversário, fui mais verdadeira que nunca, e mais sincera.
Pode até dizer-se que fui mais corajosa e louca, do que algum dia fui, atendendo ao facto de tudo ser tabu, de não haver outra conversa senão a "verdade".
E contei tudo o que me ia na alma.
Aí sim houve obstáculos, feridas que nunca saram, palavras atiradas como facas, e essas sim, deixaram marcas que hoje sei que vão ficar sempre em mim, mas que foram mais que
necessárias para eu crescer, e que já me servem como escudo para o futuro.
Afinal, quando o nosso exemplo de vida, a pessoa que mais significado tem para nós, nos diz precisamente aquilo que não esperamos ouvir.
Quando nos dá precisamente o oposto daquilo que precisamos e nos tira o tapete.
Caimos numa queda que não é qualquer.
Fraquejamos. Perdemo-nos, sem nunca nos encontrarmos.
Contudo, passam-se dois anos. E a vida passa...E volto atrás.
Conto-te tudo outra vez e sou verdadeira contigo.
Não esperei que me tirasses o tapete. Fui com a certeza de ter crescido e de tu também.
De me respeitares como sou, de me aceitares...Porque eu não sou diferente de ninguém.
Aliás, para ti sou diferente de toda a gente, e sou especial por isso.
Fui longe e contei-te tudo bem perto. Sentaste e ouviste; E melhor que tudo, falaste.
Participaste, e não foi um monólogo, nem foram gritos.
Foram palavras de gente grande.
Foi talvez a nossa conversa mais calma de mão para filha. Tens noção disso?
Em 20 anos que me conheces, foi a primeira vez que conseguimos falar abertamente com toda a calma necessária.
Sim, as escolhas que eu faço são para mim, tens razão... e a Sofia não é apenas uma escolha, nem um caminho. É uma vida, é a vida que eu quero para mim.
É ela quem eu quero abraçar todos os dias.
É ela a quem eu me quero entregar como nunca, e a quem quero dizer o quanto é importante para mim, todos os dias, a todo o momento...
É ela, a pessoa por quem eu quero esperar no sofá, sempre, depois das atribuladas horas passadas no trabalho.
É ela, Mãe.
E não te preocupes que o amor que lhe tenho, não vai de encontro ao teu. O teu é teu.
E eu amo-te, e sei que o sabes...Tu és a minha mãe.
Ela...
Ela é o amor de uma vida... da minha vida.
E tens toda a razão naquilo que me dizes!
" Crescemos quando enfrentamos a realidade"
E esta, é a minha forma crescida, de a enfrentar.